Home Amazonas ‘A minha base de campanha é que precisamos arrumar a casa’, diz...

Com três mandatos de governador, três de prefeito e um de senador  em seu currículo, Amazonino Mendes afirma que sua experiência  é o  diferencial nessa campanha para um mandato de pouco mais de um ano. Inaugurando a série de entrevistas de A CRÍTICA, que inicia hoje e segue direto até o dia 24 deste mês, com os nove candidatos ao governo do Amazonas, o ex-governador critica quem usa essa campanha como  trampolim para a eleição de 2018, além de responder às críticas feitas a ele pelo ocupante interino do governo, deputado David Almeida, a quem diz: “Apesar de ter colocado faixa e ter toda essa pose, você não é diplomado e nem foi eleito”.

O que dá para fazer em um ano e meio de mandato?

Eu sou candidato, não prometo nada. Ninguém me vê prometer, a minha base de campanha é que precisamos arrumar a casa, porque a casa está bagunçada e precisa de alguém com determinação, competência, experiência, sobretudo com amor. Vou colocar as coisas nos seus devidos lugares. Se tem um hospital pronto, que volte a funcionar, que uma UEA cumpra com o objetivo para o qual foi criada, trazer esperança concreta para as mães e seus filhos. Precisamos fazer o sistema de segurança ser mais eficaz, dar ao policial dignidade, confiança, meios respeitáveis, de tal sorte que ele possa devolver para a sociedade um bom serviço, usar de inteligência, de incentivo. Então é – ajeitar a casa e planejar. Se der tempo para outras coisas, continua-se e faz-se.

Sua saúde está em condições de suportar os rigores da campanha?

Está ótima. Acabei de atender 200 pessoas (a entrevista aconteceu no dia 13/07). Estou trabalhando direto. Estou inteiro. Paro de trabalhar 22h…23h. Estou muito saudável, muito tranquilo.

Sua última gestão (2009/2012) foi mal avaliada ao ponto do senhor sequer tentar a reeleição. Que garantias o senhor tem de que o eleitor, principalmente o de Manaus, melhorou o conceito sobre o senhor?

Não vejo assim, vejo completamente diferente. Minha última gestão foi talvez a melhor de toda a carreira. Se você examinar o que eu fiz na prefeitura, eu fiz a Ponta Negra, fiz grandes viadutos, coloquei 1.200 ônibus zerados em Manaus, fiz o Programa Leite do Meu Filho, Bolsa Universidade, melhorei todo um sistema fiscal da prefeitura. Agora o que eu não fiz foi propaganda política. Eu praticamente me restringi à administração. Cumpri com o meu dever e o povo sabe disso, de tal sorte que esse pormenor (rejeição) praticamente não existe. Se fizerem uma pesquisa hoje em Manaus, eu tenho preferência do eleitor, inclusive numa margem que cresce a cada dia. Isso é visível nas ruas, onde sou abraçado de forma espontânea e isso remete a uma reflexão: vale a pena ser sério, vale a pena trabalhar bem, produzir e zelar pelo povo.

O que o senhor sentiu de mudança na campanha com o fim do financiamento empresarial?

Olha, é muito difícil. Acredito que existam tentativas ainda primárias de mudar isso… É praticamente impossível fazer campanha hoje no Brasil. As dificuldades que estamos enfrentando são inúmeras, mas são para todos. A regulamentação é tão grave, tão drástica, que não permite mais que o próprio candidato determine quanto vai gastar com o seu marketing. Mas a gente tem que dar um jeito, produzir de acordo com as normas, né? Você tem que se adaptar, mas muita coisa deixa de ser feita por conta das restrições que, ao meu ver, são inapropriadas.

Vital para o cidadão, segundo o seu plano de governo, é a saúde, segurança e educação. O que dá para fazer nessas áreas num mandato tão curto?

O que existe hoje é falta de gestão. Então devemos aprimorar a gestão. Dinheiro tem. São R$ 15 bilhões de orçamento para uma população de 4 milhões, embora esse orçamento esteja em parte comprometido, pois pagamos de juros o serviço da dívida de quase R$ 1 bilhão por ano, mas tudo bem. Volto a dizer, isso daí é um problema de gestão. Agora, para que você resolva isso vai ter que tomar atitudes corajosas, técnicas e sobretudo equilibradas, com muita prudência. O que o Amazonas está precisando agora é disso: alguém que ordene de forma prudente, competente, qualificada a restauração do Estado.

O distrito industrial chegou ao seu nível mais baixo de emprego em dez anos. E nesse momento o governo do Estado estuda a redução da isenção de incentivos. Como o senhor vê isso?

Olha, eu já passei por isso. Já passei por crises em que o Distrito sofreu mais do que agora, por incrível que pareça. O distrito chegou a ter somente 30 mil funcionários, e apesar da crise, e até com dificuldades para pagar a folha, eu cheguei a abrir mão de ICMS para que as fábricas mantivessem os empregos, não demitissem. Então procuramos meios e caminhos de trabalharmos, tínhamos reuniões permanentes com as fábricas, as entidades corporativas. A gente tentava administrando, enfrentava. O que não dá é para tentar administrar com política de avestruz, fingindo que nada existe. Tem que enfrentar o problema. Agora mais do que essa questão crítica, são os ataques que a Zona Franca sofre. Isso é que é mais preocupante. São agora ataques mortais – um do Paraguai e outro agora do Congresso Nacional que está em vias de conclusão para votação, que é a convalidação dos incentivos fiscais, que faz desaparecer as vantagens comparativas da ZFM. Isso não piora a situação, isso mata a Zona Franca.

Se vencer, em 2018 a tentativa de reeleição é um caminho natural? E se perder vai tentar novamente em 2018?

Não. Eu acho criminoso ser candidato agora pensando na outra eleição, porque como ficou claro, a obrigação de qualquer um que chegue ao governo agora, é arrumar a casa. E quem entra no governo pensando em outra eleição vai fazer política, e as duas coisas são incompatíveis. Se lá na frente a casa estiver arrumada, tudo direitinho, é um caso a se estudar. Mas jamais posso partir do pressuposto que a luta de hoje é um pressuposto para disputar a eleição de logo mais em 2018.

Que avaliação o senhor faz do governo Melo?

Olha, é preciso reconhecer que o Melo pegou a crise. O Estado vinha num comportamento à vontade em gastos, com estádio de futebol suntuoso, fizemos ponte, Prosamim, tomamos R$ 5 bilhões emprestado. Ele pegou o Estado desse jeito, então faltou a ele tirocínio, experiência, determinação, capacidade de administrar a situação. Porque a crise no Amazonas tem ligação direta com a crise nacional. Deu no que deu. Mas não é muito válido você imaginar que ele tenha sido responsável por tudo, não. Eu acho que todos nós temos que fazer uma autocrítica. Nós temos que mudar mais o nosso comportamento, gostamos de achar culpados, mas acho que a nossa crise maior é comportamental e cultural. O dia que o brasileiro começar a mudar e adquirir uma visão cultural, a vida vai ficar bem melhor.

O David Almeida lhe pinta como um político ultrapassado, que já estava aposentado. O que o senhor diz sobre essa declaração?

O que eu posso avaliar? A gente avalia quando  alguma coisa  pode causar efeitos, consequências. Eu lamento que ele pense assim, que ele tente denegrir à toa, ridicularizar à toa as pessoas. Cá entre nós, eu não mereço isso. Ele é um governador que caiu de paraquedas, não é governador e pensa que é. Fazer isso com um homem que governou o Estado dele três vezes, foi prefeito três vezes, senador da República, acho que mereço no mínimo um pouco de respeito. Eu lamento. Isso não é papel de um governante. Ele, que quer ser governante, não podia ter esse tipo de postura. Só lamento. Agora… eu daria para ele um conselho de um velho numa rede: David, para de tentar brincar de ser líder político e procura defender o Estado que está numa situação grave, muito difícil. Procure agir como magistrado diante deste processo, cumpra o seu momento constitucional que você não é governador, apesar de ter colocado faixa e ter toda essa pose, você não é diplomado e nem foi eleito. Faça isso com altivez, com grandeza, para você ser lembrado logo mais como uma pessoa equilibrada. Esse é o conselho de um velho numa rede.

No seu plano de governo, o senhor promete que irá recriar a Secti. A extinção dessa pasta causou muita polêmica à época, o senhor considera que foi um erro do Melo?

Esse pessoal comete muitos erros, muitas bobagens, corta gastos onde não deve e gasta onde não deveria gastar. Ele (Melo) não cometeu só esse erro, cometeu vários. Isso é imperdoável, pois o único caminho que liberta é o do conhecimento. Se nós pudéssemos fazer o máximo de escolas técnicas, formar quadros e tanto quanto fosse possível compatibilizar essas formações para destinar para o mercado, melhor ainda.

Perfil

Nome: Amazonino Armando Mendes 
Idade:77
Estudos: Formado em Direito pela Universidade Federal do Amazonas.
Experiência: Foi prefeito de Manaus de 1983 a 1986; de 1993 a 1994; e de 2009 a 2012. Foi governador do Amazonas de 1987 a 1990; de 1995 a 1998; e de 1999 a 2002. Foi derrotado na eleição de 2004 e de 2006.

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