Manaus 15.05.2020. Dia do Gari. Silvana Alves. Foto: Lucas Silva

Manaus – Ao se deparar com uma farda laranja nas ruas: é sinal de limpeza. Em uma atividade diária em Manaus, o uniforme veste aquele que recolhe a sujeira e em vezes a falta de educação dos manauaras. A profissão do gari tem como saldo a condição de ser essencial.

No dia 16 de maio é considerado nacionalmente o Dia do Gari. De acordo com a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp), o sistema de limpeza pública conta com aproximadamente 3 mil trabalhadores que atuam nos serviços de coleta domiciliar, varrição, capinação, remoção mecanizada, jardinagem, conscientização, coleta seletiva corte e poda e limpeza de igarapés.

A rotina dos profissionais é dividida em três turnos e apesar das ações serem intensas, a servidora de limpeza pública Silvana Alves afirma que o trabalho é exercido com satisfação.

“Eu trabalho há quatro anos na área e em toda ação que eu faço tenho um olhar de carinho e busco executar com amor e dedicação. O trabalho de limpeza foi onde eu consegui oportunidade e também uma qualidade de vida melhor. Nossa classe também está diretamente ligada ao meio ambiente que diariamente trabalhamos para preservá-lo”, ressaltou Silvana.

Manaus 15.05.2020. Dia do Gari. Silvana Alves. Foto: Lucas Silva

A servidora de limpeza Geralcinda Colares, também trabalha com limpeza pública há quatro anos e diz que a profissão tem dias intensos, mas o segredo para se dedicar na rotina de trabalho é o amor, por meio dele é possível alcançar a qualidade nas atividades e a realização na finalização delas.

“Eu já passei pelos setores de capina e varrição. Não vejo motivos para reclamar, penso que precisamos trabalhar com o que gostamos. E como gari eu me sinto bem e gosto do meu trabalho, por isso tudo fica mais leve mesmo nos dias cansativos”, enfatizou a servidora.

Desafios 

Diariamente os profissionais passam por alguns desafios, o principal deles é lidar com a falta de respeito dos motoristas que trafegam nas vias da capital amazonense.

“A nossa principal dificuldade é a falta de segurança nas ruas, os motoristas não possuem respeito por nós. Eu trabalho nas avenidas que tem grande fluxo de carros e como as vias são estreitas, os motoristas passam em alta velocidade, parece que não olham para nós. Às vezes temos que usar o carrinho de limpeza como obstáculo para não sofrermos acidentes, inclusive já aconteceu de motoristas que bateram meu carrinho e por sorte eu não estava tão próximo, caso contrário, eu sairia machucada com certeza”, contou Silvana.

Manaus 15.05.2020. Dia do Gari. Silvana Alves. Foto: Lucas Silva

Segundo a servidora, alguns colegas de trabalho já sofreram acidentes graves e vieram a óbito por conta da imprudência dos motoristas.

O clima amazônico também é outro fator de desafia os profissionais, para Geralcinda, o dia mais desafiador é aquele onde o sol não dá trégua.

“O calor maltrata muito a gente. Nós usamos diversos equipamentos de proteção individual para nossa segurança, mas em alguns dias o tempo é tão quente que acaba tornando o trabalho ainda mais difícil, principalmente durante a tarde o sol não perdoa”, destacou Colares.

Ainda pela falta de segurança os profissionais padecem com a violência na cidade, apesar de trabalharem com a presença de fiscais, muitos já sofreram assaltos logo no fim do expediente.

“Durante o trabalho os infratores ainda possuem respeito, mas após o serviço ninguém está seguro, a situação é preocupante, pois faz com que a gente perca a liberdade de ir e vir com segurança. Muitos colegas de profissão que exercem o cargo noturno relatam histórias de assalto após o serviço devido às ruas estarem desertas”, disse Silvana.

Preconceito 

Muitos profissionais que exercem as atividades de limpeza pública ainda enfrentam o preconceito de pessoas com a ideia equivocada, de que os garis não prezam pela própria higiene. Outras ainda pensam que profissão é voltada somente para pessoas com baixa escolaridade.

“Lembro de que um dia eu e uma amiga de profissão decidimos ir em uma loja de roupa durante nosso horário de almoço, logo na entrada, uma mulher esbarrou na minha amiga sem ao menos pedir desculpas. A primeira reação da moça foi limpar o braço em que encostou na minha amiga, mesmo não sendo comigo a cena foi lamentável”, relembrou Geralcinda.

 Silvana disse que constantemente é abordada por pessoas que lhe oferecem restos de alimentos durante o expediente. Segundo ela, a atitude é reflexo da falta de informação entre as pessoas que foram ensinadas que gari é uma pessoa necessitada em situação de rua. E apesar de conviverem com o desprezo humano, as servidoras não escondem o orgulho da profissão.

“Eu tenho muito orgulho do meu trabalho, pois exerço com respeito ao próximo. Acho que as pessoas deveriam seguir nosso exemplo de preservar o bem-estar de todos sem pensar em classes. Minha profissão é digna e não tenho vergonha de dizer que sou gari, pois trabalho para uma causa maior, o combate à poluição”, enfatizou Alves.

Geralcinda espera que com a data seja uma forma das pessoas refletirem sobre a importância dos profissionais para a sociedade e que a reflexão possa trazer mais empatia com o outro.

“O que seria da cidade se não fosse o gari? Somos nós que coletamos o lixo de pessoas que não possuem consciência sobre o prejuízo que os resíduos jogados nas vias causam a todos nós. A profissão é difícil assim como outras e nós merecemos ser valorizados acima de tudo”, destacou.

Crescimento 

Assim como em diversas profissões, os servidores da limpeza pública possuem a oportunidades de crescer profissionalmente e alcançar cargos superiores por meio da dedicação nas ações e boa postura no trabalho.

Segundo o secretário operacional, Emerson Oliveira, a empresa Mamute operante na capital amazonense em serviços de limpeza, possui uma política de crescimento que beneficia os colaboradores.

“A política de crescimento da empresa começa por meio de fiscais e encarregados que são orientados a observarem os profissionais que se destacam no campo. Aqueles que possuem perfil de liderança são recrutados para serem fiscais. Profissionais com características como organização, boa oratória e escrita são promovidos para ingressar na área administrativa. Então quando surge oportunidades, sempre priorizamos nossos colaboradores, os garis”, explicou Oliveira.

Um dos profissionais que atingiu o crescimento profissional na empresa foi o colaborador, John Erick, que por meio do seu desempenho recebeu promoção na empresa e pode conquistar um dos seus principais objetivos, a compra de um veículo próprio.

“Comecei trabalhando nas equipes de varrição, limpeza de igarapés, balsas e capina. Após um ano de trabalho fui chamado para ingressar na manutenção da empresa onde fazia o trabalho de preservação os materiais da limpeza. Por meio do meu desempenho e das boas oportunidades que me foram dadas, hoje estou no setor de almoxarifado onde possuo uma grande responsabilidade dentro da empresa, só tenho a agradecer aos fiscais e auxiliares pelo reconhecimento”, explicou John.

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